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 Growing Upside Down (slash)

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ritalavalerie.
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MensagemAssunto: Growing Upside Down (slash)   Sex Jan 30, 2009 6:42 am



    Título: Growing Upside Down (parte I)
    Tipo: one-shot longa (poderá vir a ter uma sequela, if you want. e vou postando esta por partes para não ser muito overwhelming, 'k?)
    Géneros: romance, slash, cousincest (oics? xD), algum femslash atirado lá para o meio, porque eu não consigo resistir.
    Pairings: Afonso/Martinho (POs, clicar nos nomes para ver fotos, plz.)
    Avisos: idk, none i think.
    Classificação: PG-17
    Sumário: Quando lhe falavam em casamentos, Afonso pensava em comida à descrição e familiares bêbados, não em reencontros com o passado que prometiam virar a sua vida do avesso.
    Disclaimer: nada para disclaimar, visto que as personagens são minhas, muahahah. oh, esta história poderá ou não ser INSPIRADA em factos reais, tehe. e o título foi retirado da música com o mesmo nome by The Ditty Bops.
    Notas da Autora: soooo, o que é isto? isto é uma fic original que sempre sonhei em escrever, visto que o plot bunny não me largava há anos. poderia até ser considerada ‘fan fiction’, but let’s just NOT go there, ok? como já disse pode ou não ser inspirada em factos reais e passa-se algures em Portugal, eh. so, espero que gostem, ‘coz this is one of the very few things I can do, honestly (uuh, que talentosa que eu sou, portanto xD).


    Growing Upside Down I


    Já lá iam os anos em que ele gostava de casamentos, definitivamente.

    O mosteiro em que o seu primo mais velho e a noiva decidiram casar já tinha sido palco de muitos outros casamentos de família, de primos directos e afastados, tios, conhecidos e afins. Já tinha perdido o encanto, ou talvez com a idade ele é que tivesse perdido a capacidade de se deixar encantar. Os convidados estavam todos felizes, como habitual, excepto a tia-avó Marília que chorava sempre naquelas ocasiões, em especial quando o via porque aparentemente ele era a cara chapada do seu falecido avô que nunca conheceu. A mãe já não o mandava calar porque afinal ele já tinha idade para se comportar numa igreja, mas não parava de lançar olhares de desagrado à sua irmã mais velha até que a rapariga parasse de comentar as indumentárias de todos os presentes. Sinceramente, com 21 anos era de esperar que ela já tivesse pensado em aprender a controlar aqueles impulsos. A verdade é que no meio de quase 300 convidados, Telma era certamente uma das mais bem vestidas, não fosse ela uma aficionada por moda, mas escusava de estar a sussurrar para ninguém em particular sobre o quão o vestido da senhora da segunda fila parecia comprado numa loja dos chineses ou como é que um padrão como o do vestido da rapariga à direita do homenzinho careca devia ser proibído por lei ou considerado um pecado mortal, não autorizado sequer a entrar na Casa do Senhor.

    O discurso do padre era o mesmo, nada de novo, coitado do homem, também já estava mais para lá do que para cá, e a única pessoa que parecia genuinamente interessada na missa era, obviamente, a sua avó, beata de coração e seminarista há mais de 20 anos. O seu primo e a noiva não paravam de sorrir, a sua tia Alice, mãe do noivo, estava obviamente emocionada, e tudo aquilo estava a tornar-se cada vez mais e mais aborrecido, não fosse um reflexo dourado que já não via há muito tempo ter-lhe chamado à atenção.

    Martinho, a única cabeça loira em várias filas se não contarmos com o os cabelos oxigenados da tia Marília, prendia o olhar de qualquer um. E ele sabia disso muito bem, a julgar pelo porte confiante que tinha adquirido ao longo dos anos. Afonso invejava isso mais que qualquer outro traço do primo, mais que os seus lábios perfeitamente delineados – aparentemente um traço de família, visto que a irmã e a mãe não paravam de elogiar os seus – mais que os seus ombros largos, mais que as suas pernas bem definidas ao contrário das suas muito mais magras, mais que os fios dourados que formavam uma cabeleira vasta, mesmo que curta, mais que aqueles olhos azuis que mais ninguém na família se podia orgulhar de ter a não ser uma bisavó a quem nunca sequer viu a cor. Muitos poderiam querer tudo isso para eles próprios, mas Afonso estava muito feliz na sua pele, apesar de todos os seus defeitos, da sua magreza excessiva, dos seus olhos e cabelo castanhos e das sardas irritantes que lhe cobriam o nariz e as bochechas, mesmo que o primo tivesse muitas mais que ele, quase espalhadas por todo o seu corpo. Não, a única coisa que Afonso queria era ter o àvontade dele, saber como é não sentir uma necessidade mórbida de se esconder em algum canto, de fugir a qualquer pessoa que aparente o intuito de socializar. Telma era certamente muito mais parecida com Martinho, sempre a alma da festa onde quer que estivesse, algo que incomodava Afonso e que talvez fosse a causa de muitas das vezes que a tivesse tratado mal ou criticado. No fundo até a admirava.

    Foi acordado dos seus pensamentos quando o primo se voltou para trás e os seus olhares se cruzaram. Como se os anos não tivessem passado e a relação deles não se tivesse deteriorado, aqueles olhos azuis sorriram-lhe mesmo antes da boca e Martinho fez uma expressão cómica, pondo a língua de fora e consequentemente atraindo a atenção de uns quantos convidados. Ouviu-se uma risada infantil e Afonso não teve que olhar para adivinhar que esta pertencia à sua prima mais nova, a pequena Beatriz. E mesmo que quisesse, provavelmente não iria ser capaz de desviar o olhar com tanta facilidade. Obrigou-se a reagir, ficando-se por um sorriso e uma piscadela, sorrindo ainda mais quando dentes brancos e brilhantes se mostraram de volta. Ao seu lado, Telma acenava, atraindo a atenção de Martinho para si e deixando que Afonso pudesse finalmente respirar.

    Merda, ele sabia que a distância não iria ser suficiente para o fazer esquecer.

    Ele tinha tentado, obviamente. Para começar já bastava uma ‘desviada sexual’ na família e se a mãe dele sequer sonhasse que também ele se sentia atraído por pessoas do mesmo sexo, aí é que a casa ia abaixo. Talvez não tivesse acontecido até aí porque Telma era óptima a fingir-se de heterossexual, excepto quando alguém se decidia armar em machista ou homofóbico. Mas ele não. Ele nunca tinha tido uma namorada nos seus 18, quase 19 anos de vida, ou seja, nada de usar as mesmas desculpas que a irmã inventava, culpando a sua ‘pouca sorte’ com homens no único namorado que tinha tido há meia dúzia de anos ou coisa parecida. A timidez também não ajudava nada: mesmo que quisesse não conseguia fazer nenhum comentário decente sobre uma qualquer rapariga que lhe perguntassem se era atraente. Encolher os ombros não era sinónimo de grande heterossexualidade, definitivamente.

    E por fim, é claro, vinha o Martinho. O primeiro, o único, o das experiências de adolescência, pré-adolescência, até mesmo de infância se fossemos sinceros. Martinho, ao contrário de Afonso, era o típico adolescente hormonal e por causa dele começaram uma série de acontecimentos que os viriam a marcar para o resto da vida. Ou pelo menos Afonso sentia-se indubitavelmente marcado. Só de pensar na última vez que estiveram juntos intimamente, Afonso já sentia um arrepio incontrolável a percorrer-lhe a espinha, obrigando-o a fechar os olhos e a baixar a cabeça, sentindo-se tão envergonhado como excitado por estar a ter aqueles pensamentos num local tão inapropriado. E sobre o seu próprio primo de primeiro grau e melhor amigo até há coisa de quase três anos! Se ele acreditasse no inferno, já estava certo de que iria lá parar.

    Mas era impossível não revisitar aquelas memórias de tempo a tempo. Afinal era nessa última vez, passada há cerca de um ano e meio atrás, que ele pensava sempre que precisava de alívio rápido em noites sem sono. E mesmo que a experiência não tivesse acabado da melhor forma e o tivesse deixado a afogar-se num mar de culpas e pesos na consciência – para não falar da imensa tensão sexual que não o largava até àquele dia –, também tinha sido uma das melhores coisas que tinha feito na vida, na medida em que o ensinou o que era sentir. Talvez por isso ele se lembrasse de cada detalhe, de cada toque, de cada palavra...

    Flashback

    Era mais um final de tarde frio no salão da avó, mesmo com a lareira a crepitar há várias horas. Afonso protegia-se debaixo de um grande cobertor e via televisão à falta de coisa melhor para fazer, desejando que as horas passassem o mais rápido possível para poder voltar para casa.

    Há semanas que se esquivava de fazer a visita dominical à terra da sua mãe sem nunca perceber bem porquê. Arranjava uma desculpa qualquer, já o fazia há alguns meses e como não era o único – Telma também tinha essa tendência – tornava-se ainda mais fácil. No fundo ambos tinham razões parecidas, ambos pareciam criar um péssimo ambiente naquela casa, ela com os pais e ele... ele com o primo. Nenhum dos dois sequer falou no que se havia passado entre eles ao longo dos anos, mas de alguma forma o facto de que, aos 17 anos de idade, as experiências sexuais de Afonso se limitavam ao outro rapaz, mudava muita coisa. Por qualquer razão Martinho já não lhe contava tudo, incluindo os seus vários namoricos com diversas raparigas que Afonso viria a saber pela mãe. Provavelmente não o queria deixar constrangido. Na pior das hipóteses também ele desconfiava do que Afonso já estava a temer há algum tempo...

    E lá estava ele a pensar naquilo outra vez! Tão perdido estava nos seus pensamentos que nem ouviu o som de passos a subir as escadas até ao salão, muito menos a caminhar em pezinhos de lã até ao sofá. Quando deu por si estava-se a controlar para não gritar quando alguém lhe decidiu pregar um susto, sendo que esse alguém acabou por se revelar no sorriso maníaco de Martinho a aparecer do seu lado esquerdo. Aparentemente, mesmo depois de anos e anos, aquele espírito rebelde continuava o mesmo.

    “Então Fonzie, ‘tá tudo?” ele perguntou com a maior das naturalidades. Afonso suprimiu a vontade de lhe pedir encarecidamente para parar de o chamar Fonzie e apenas se limitou a agarrá-lo pela cabeça, puxando-o para baixo com toda a sua força, mesmo sendo pouca comparada com a do outro rapaz. Martinho resistiu um bocado até se limitar a cair para o sofá, indo eventualmente parar ao chão. Só quando se voltou a levantar é que pareceu reparar na presença dos tios, sorrindo e mantendo uma postura invejável mesmo com a roupa amarrotada e o cabelo despenteado.

    “Olá tia.” ele cumprimentou a mãe de Afonso com dois beijos na cara, baixando-se sobre o cadeirão onde ela estava sentada. Num outro cadeirão do lado esquerdo do sofá que Afonso ocupava, Martinho cumprimentou o tio com um aperto de mão e um típico “Olá Chefe!”.

    Por momentos parecia tudo tão normal e familiar que Afonso deixou-se levar pelo engodo de que tudo iria, eventualmente, voltar a entrar nos eixos. Porém, bastou um olhar sério e intenso do primo, vindo não se sabe de onde e com a duração de uns míseros segundos, para o pôr outra vez tenso, nervoso.

    “Chega-te para lá.” Martinho falou eventualmente, levantando o cobertor que cobria o corpo do outro rapaz e colocando-se exactamente ao lado dele, mais perto do que devia, mas longe o suficiente para não levantar suspeitas. Afonso devia ter desconfiado logo que alguma coisa se ia passar, afinal não era a primeira nem a última vez que aquele cenário se repetia, sendo que uma delas tinha sido num Natal qualquer que ainda hoje lhe ficava na memória, mas por momentos acreditou que o primo fosse manter a decência. Afinal estavam só quatro pessoas naquela sala, a avó tinha saído para participar numa cerimónia religiosa qualquer, e uma televisão pode distrair o ser humano de muita coisa, mas respirações aceleradas costumam ultrapassar esse limite.

    “A Telma não veio?” ele perguntou, pontuando a frase com um movimento de perna, e um toque de joelho contra joelho. Afonso engoliu em seco e limitou-se a responder.

    “Está a viajar.”

    Ou melhor, estava a viver fora do país, certa de que tinha finalmente encontrado o amor da sua vida, mas mais cedo ou mais tarde acabaria por voltar. Ela voltava sempre.

    “Ah é? Onde?” Martinho voltou a mexer a sua perna contra a do primo, dessa vez de uma forma mais óbvia, deixando o coração de Afonso a palpitar a mil à hora e fazendo com que uma parte do seu corpo começasse a acordar. Porra, mas ele era mesmo um triste.

    “Londres.”

    Ao perceber o rumo que aquela conversa estava a tomar, o pai mexeu-se na cadeira e a mãe tossiu uma vez, sinais que Afonso interpretou como ‘vamos ficar por aqui, se faz favor ’. Era algo que não se falava muito na família, esse tema, muito menos na casa da avó, não fossem os pecados da Telma corromper a atmosfera pura e casta daquele sítio.

    Como se tudo o que Afonso e Martinho fizeram ali já não fosse o suficiente.

    Os restantes minutos – que mais pareceram horas – poderiam ser descritos como tortura. Uma doce tortura, mas mesmo assim... Martinho não parava de o tocar ‘acidentalmente’ por baixo do cobertor, quer com os pés, com os joelhos, com as mãos, meu deus, as mãos! Naquele dia a discrição parecia ter sido atirada janela fora, e em momentos Afonso via-se obrigado a agarrar a mão do outro rapaz, mão essa que já estava a subir demais na sua perna e não tardava nada ainda lhe ia arrancar um gemido da boca. Martinho pareceu perceber a dica, porque recuou e preparou-se para se levantar do sofá.

    “Queres ir jogar PC lá para casa?”

    Afonso sabia muito bem que iam fazer muito mais do que ‘jogar PC’, mas a verdade é que ele queria isso. Fazer mais. Oh, se queria.

    “Tudo bem.”

    Saíram juntos pela porta da cozinha e percorreram o passeio de cimento ao longo dos dois quintais que dava acesso da casa da avó para a casa onde Martinho vivia com os pais e o irmão mais velho. Subiram as escadas até chegarem a um salão idêntico ao da casa da avó, porém decorado com muito mais gosto, e acabaram os dois sentados à frente do computador numa pequena sala adjacente a esse salão, uma espécie de escritório com uma pequena janela circular à esquerda da secretária e um tecto em declive, tanto que a meio da sala já se tornava impossível caminhar sem ser de cócoras. Jogaram durante meia hora, mais coisa menos coisa, sempre em silêncio e rodeados de uma tensão tão grande que até as respirações de ambos se conseguiam ouvir sobre o barulho de carros a acelerar, até que Martinho voltou a falar.

    “Como é que vão as coisas com as miúdas?”

    “Não vão.” ele respondeu com sinceridade, continuando concentrado no jogo. Martinho estava sentado ao seu lado, observando o carro a vencer os obstáculos e a percorrer toda a extensão de uma pista especialmente complicada. Afonso orgulhava-se de ser um ás naquele jogo, mesmo que Telma culpasse esse seu talento à falta do que fazer.

    “A sério? Continuam na mesma?” o outro rapaz continuou a insistir, certamente já sabendo as respostas que iria receber, mas fazendo-se de ignorante. O carro de Afonso espetou-se contra um poste pela primeira vez em várias voltas e as suas mãos começaram a ficar suadas de nervosismo.


Última edição por ritalavalerie. em Ter Fev 10, 2009 1:42 pm, editado 3 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Sex Jan 30, 2009 6:43 am



    “Yep.” ele limitou-se a confirmar, não confiando muito na sua voz para falar mais. Mas Martinho parecia mesmo empenhado em levar aquele assunto até ao fim, aproximando-se ainda mais dele até lhe invadir o campo de visão com a silhueta do seu rosto perfeitamente proporcional e insistindo outra vez.

    “Nem uma vez só? Um broche, nada?”

    “Já te disse que não!” Afonso gritou dessa vez, continuando a clicar nas teclas, tentando em vão abafar as palavras do primo.

    “Não acredito! Tens que experimentar, pá.” Martinho continuou num tom conversador e leve, como se estivesse a falar do tempo. “Fazemos assim, jogamos uma volta cada um, o que tiver a classificação mais baixa faz um ao outro, ok?”

    E foi aí que o carro de Afonso capotou e foi parar ao terreno que o excluía definitivamente daquela corrida. Há séculos que tal não lhe acontecia.

    “Ah-ah, que piada.” ele falou num tom sarcástico, não muito satisfeito por ter perdido a corrida e ainda menos contente com o estado do seu corpo que parecia mais interessado na conversa do que ele. É claro que o outro idiota estava a gozar com a cara dele, era tudo tão típico... excepto aquele silêncio. Martinho era sempre o primeiro a rir-se das suas próprias piadas. “Tu estás a falar a sério?”

    “Estou.”

    Outra vez aquele tom descontraído, como se não estivessem a falar de uma coisa bastante séria. Provavelmente para ele não era, provavelmente quem estava a exagerar na preocupação era Afonso e a sua mente virginal. Por momentos lembrou-se da voz da irmã a dizer ‘Tu podes ter 17 anos, mas para mim sempre serás uma criança e/ou uma criatura assexuada.’

    Mas por muito ‘assexuado’ que ele fosse, esse lado de si estava cada vez mais longe de se mostrar naquele momento. Pelo contrário, ele podia jurar que o coração lhe ia saltar pela boca de tanta excitação misturada com nervosismo. E ele nem sabia por que raio é que estava nervoso, já estavam ali há mais de meia hora e Martinho nunca o tinha vencido numa corrida sequer. Mas por muito nervoso que estivesse, o seu corpo adolescente não o estava a deixar recuar.

    “O-ok.”

    A pista era bastante complicada, mas nada que Afonso não tivesse passado antes sem grandes dificuldades. É claro que num Domingo à tarde andavam muitos desocupados pela rede, muitos deles ainda melhores que ele, por isso o típico quarto lugar numa corrida com mais de 20 participantes já o deixou confiante. Além disso, naquela tarde Martinho não havia passado do 8º lugar, alegando que não era grande frequentador do jogo. Resumindo, Afonso estava cada vez mais certo de que era o vencedor da aposta—

    —até ter que repensar as suas certezas quando Martinho arrancou e nunca mais parou, chegando em 2º lugar e com uma diferença do primeiro de míseras milésimas.

    “Tu disseste que não jogavas isto muitas vezes.” Afonso acusou, tentando ignorar o seu coração que havia disparado em batidas freáticas, mas falhando miseravelmente. Estava-lhe estampado na cara o quão ele não estava à espera daquela reviravolta.

    “O que posso dizer, foi um golpe de sorte!” Martinho falou com um sorriso, encolhendo os ombros e fazendo-se de inocente. Era tão óbvio que ele tinha planeado aquilo tudo! “Agora menos conversa e mais acção.”

    “Oh, vai-te lixar.”

    “Quê, vais-te cortar?”

    Ele queria, mas... não ia. Era óbvio que não. E o primo conhecia-o bem o suficiente para o saber.

    “Desliga a luz.”

    Martinho levantou-se e desligou a luz da pequena sala, deixando que apenas o lusco-fusco exterior a iluminasse. O final da tarde estava-se quase a transformar noite, apenas o mínimo de claridade entrava pela pequena janela e Afonso mal conseguia ver a expressão do outro rapaz. E era assim que devia ser, tal como em todas as outras vezes que tinham estado juntos, no escuro, de rostos escondidos e expressões invisíveis. Não havia um cobertor por perto onde se pudessem esconder, mas talvez estivessem velhos demais para isso. Se Martinho se sentisse incomodado então que fechasse os olhos.

    Sem luz para o intimidar, Afonso limitou-se a seguir o vulto do primo que tinha caminhado até ao fundo da sala, onde uma pessoa se via obrigada a sentar no chão para não dar com a cabeça no tecto, e sentou-se ao lado dele, esperando por algum sinal, ou pelo menos era isso que dizia a si mesmo. Depois de ouvir o som de um cinto a desapertar e de um fecho a descer já não tinha mais desculpas para não fazer nada.

    “Então?” Martinho chamou num tom impaciente, mexendo-se no seu lugar e fazendo com que o cinto tilintasse, deixando o outro rapaz ainda mais nervoso, quase a entrar em pânico, mas ao mesmo tempo mais excitado que nunca, como aquilo que sentia quando o primo o tocava por baixo de cobertores, mas multiplicado por mil.

    “Espera.” ele pediu, respirando fundo e colocando-se finalmente entre as pernas estendidas do outro rapaz, baixando um bocado a cabeça, mas com pouca certeza do que estava a fazer.

    “Anda lá, eu depois faço-te um.” Martinho acabou por dizer, provavelmente da boca para fora, mas foi o suficiente para convencer Afonso de que a melhor opção era parar de adiar o inevitável e passar ao acto.

    Começou tudo tão rápido que a princípio ele nem sequer estava bem ciente do que estava a fazer. Apenas movia a cabeça para cima e para baixo, sem se preocupar com inutilidades como preliminares, constrangido e mortinho por ver o fim daquela experiência. Não que o acto fosse desagradável ao ponto de se tornar repulsivo, exactamente, mas as circunstâncias que o tinham levado àquilo não eram propriamente felizes, mesmo depois de tudo o que eles os dois tinham feito juntos. E o silêncio de Martinho também não estava a ajudar, fazendo com que Afonso se perguntasse se estava a fazer alguma coisa mal. Normalmente ambos tentavam manter o silêncio, mas nem tanto, e naquele dia a casa dele estava vazia, com os pais a visitar a sua avó paterna e o irmão a passear com a namorada.

    Decidido a acabar com aquilo o mais rapidamente possível, Afonso aplicou-se mais, usando mais língua e aumentando a velocidade, procurando por alguma reacção, qualquer reacção. Quando as ancas de Martinho se elevaram impulsivamente e um pequeno gemido se fez ouvir no silêncio da sala, Afonso sorriu por dentro e voltou a repetir o movimento que tinha provocado tal reacção. E subitamente o som mais audível naquele pequeno espaço era a respiração acelerada do rapaz por baixo de si, juntamente com incentivos que não passavam de palavras soltas e alguns palavrões pelo meio. A certa altura, sem saber muito bem como, Afonso tinha prendido uma mão do outro rapaz noutra sua e apertava-a tanto como era apertado, sentindo os seus dedos a estalar, mas ignorando a dor. Porque por mais que ele estivesse reticente no início, naquele momento não havia outra coisa que ele preferisse estar a fazer, ali, entre as pernas do rapaz que o conhecia melhor que ninguém, a controlar-lhe todos os movimentos e gemidos em gestos tão simples como um movimento de língua ou um deslizar de mãos. Era irónico, era excitante, era viciante.

    Quando finalmente se atreveu a olhar para cima, o que viu quase o obrigou a levar uma mão à sua própria erecção de tão erótica que era a visão perante os seus olhos. Martinho tinha crescido, se tinha. Afonso invejava-o mais uma vez, invejava-o como sempre, até porque ele próprio ainda não tinha mudado muito nos últimos anos. Mas naquele momento outro sentimento ainda mais forte acordava dentro de si, um sentimento estranho e definitivamente impróprio que lhe estava a dar ideias como parar o que estava a fazer só para se elevar um bocadinho e provar a pele do pescoço do outro rapaz, lamber-lhe aquela zona sensível mesmo por baixo do queixo e—e nada. Ele não podia estar a pensar naquilo, era estranho demais, íntimo demais. Concentrou-se antes no seu compromisso, não sem antes olhar uma última vez para os olhos do primo que brilhavam no breu que os rodeava. O que ele não esperava era ficar preso naquele olhar tão intenso, quase semi-serrado, mas ainda assim dirigido a si. De alguma forma a ideia de que estava a ser observado atentamente deixou-o ainda mais entusiasmado e Afonso livrou-se de qualquer restrição que ainda tinha, entregando-se ao acto nefário que estava a cometer sem pensar nas consequências.

    “Não pares...” foi a última coisa que Martinho disse antes de quebrar o contacto ocular com ele e atirar a cabeça para trás num longo gemido. Afonso, porém, não estava à espera daquela invasão no interior da sua boca e acabou por se entalar, sentando-se imediatamente e tossindo vigorosamente, procurando recuperar o fôlego. Martinho demorou uns segundos a acordar do transe induzido por um orgasmo monumental, mas quando o fez apressou-se em auxílio do primo, puxando-o para si e dando-lhe umas quantas palmadas nas costas.

    “Afonso? ‘Estás bem?” ele perguntava com genuína preocupação, enquanto que a respiração de Afonso retomava a normalidade e o seu cérebro assimilava o que tinha acabado de acontecer, o que estava a acontecer naquele exacto momento. “Olha para mim, pá!” Martinho continuava a chamar, agarrando-lhe no rosto e tentando perceber o que se passava. E foi aí que Afonso parou de tossir, prendeu o olhar nos olhos do rapaz que o agarrava com tanto cuidado e preocupação, a seguir nos lábios à sua frente que continuavam a expirar grandes lufadas de ar que lhe atingiam a cara como uma carícia, e perdeu totalmente a cabeça.

    O beijo foi curto, apenas um toque de boca contra boca, mas foi o suficiente para mudar completamente a atmosfera que os rodeava. Quando caiu em si, Afonso não precisou esperar nem mais um segundo para se levantar e sair da sala, indo parar ao galinheiro da avó no fundo do quintal onde se escondeu e se deixou ficar por muito, muito tempo.

    End of Flashback


    Pode-se dizer que depois disso as coisas nunca mais voltaram ao que eram. Afonso evitou o primo durante os meses que se seguiram, aplicando-se tanto nos estudos para não ter que visitar a terra da avó que a sua média miserável subiu consideravelmente. Durante as férias de Verão era inevitável que se cruzassem de vez em quando, mas mesmo assim as coisas nunca mais foram o mesmo, e depois de ter feito 18 anos e entrado numa Universidade que o obrigava a viver longe de casa, aí sim é que nunca mais voltou a ver o outro rapaz.

    Até àquele dia, claro está.

    A cerimónia arrastou-se por mais meia hora até que o padre finalmente a deu como terminada e todos os convidados abandonaram a igreja, juntando-se no pátio de olhos postos nas grandes portas por onde iriam sair os recém-casados. Afonso tentou esquivar-se daquele mar de gente, mas acabou por ser puxado para a frente pela a irmã, que tinha desencantado arroz não se sabe de onde e estava pronta para o atirar com o maior entusiasmo.

    “Não achas que atirar arroz é assim um bocadinho... parolo para ti?” Afonso perguntou-lhe, já habituado às manias dela.

    “Desculpa, mas o vestido da Carla é que é parolo,” ela disse num sussurro, olhando em volta para se certificar de que ninguém a ouvira a criticar o vestido da noiva. “se tivesse tomates podres podes crer que ela já estava a levar com eles. Como não tenho, vai arroz mesmo.”

    “Só tu é que não és parola aqui, não é Sra. Canário?”

    “Também não exageres.”

    E a conversa tomava o seu rumo habitual, com Afonso a criticar o vestido amarelo-vivo da irmã – aliado a um chapéu preto com rede e plumas incluídas que combinava perfeitamente com o cinto e os sapatos – Telma a criticar o resto do mundo e por fim a fazer-se de boazinha. Certas coisas simplesmente não mudavam.

    Finalmente os noivos abandonaram a igreja, sendo imediatamente atacados por grãos de arroz e pétalas de rosa. Afonso apenas se limitou a observar enquanto que os restantes convidados festejavam, incluindo Martinho que havia agarrado o irmão pelos ombros e estava naquele momento a congratulá-lo, provavelmente. Camilo sorriu-lhe e abraçou-o, deixando-o logo de seguida para receber os desejos de felicidade de uma tia qualquer. Só quando os seus olhares se voltaram a cruzar é que Afonso reparou que o outro rapaz vinha agora na sua direcção, provavelmente porque a irmã não lhe parava de acenar.

    “Martinho!” Telma exclamou mal lhe pôs as mãos em cima, agarrando-o pelos ombros para lhe dar dois beijos na cara, tendo de se pôr em bicos de pés para surpresa do irmão. Mas e daí ele também já era mais alto que ela. Um ano podia mudar muita coisa, definitivamente. “Oh, my God, essa gravata fica-te tão bem! Vês Afonso, eu disse-te que uma gravata azul ia favorecer os olhos dele, não os teus. Ainda bem que me tens para te aconselhar, não é? Oh Martinho, diz-me lá se ele não fica fabuloso com esta gravata!”

    E lá estava ela a falar sem parar, ainda para mais a elogiá-los aos dois ao mesmo tempo. Ela adorava fazer isso sempre que podia, já quando eram mais novos não parava de dizer o quão fofos eles eram e como era perfeito que os dois rapazes mais bonitos da família tivessem idades tão próximas, uma diferença de menos de dois meses. Era um bocadinho constrangedor, mas Telma tinha um jeito especial para constranger Afonso, mesmo quando estava a ser simpática. Martinho limitou-se a olhar o primo de cima a baixo e a dar-lhe por fim um pequeno sorriso, deixando o coração de Afonso a bater a mil à hora, algo que não era de todo aceitável.

    Ele é o teu primo. E um rapaz!

    “Fica, fica!” ele acabou por concordar, fazendo com que Afonso levasse inconscientemente a mão à sua gravata verde-escura. “Estás... diferente. Já não te via há...”

    “Quase um ano.” Afonso completou instintivamente, sentindo uma tensão muito estranha a formar-se entre eles a cada segundo que passava. Martinho não parecia querer evitar olhá-lo nos olhos como antes, mas Afonso não sabia se preferia isso ao olhar intenso que estava a receber.

    “Ya, isso.” Martinho assentiu, franzindo um pouco o cenho como se só naquele momento se tivesse apercebido dos vários meses que tinham passado desde a última vez que se viram. Afonso não o censurava, era no mínimo surpreendente para quem se chegava a ver todos os fins-de-semana quando eram mais novos. Por fim Telma voltou a entrar na conversa, distraindo-os daquele momento.

    “Ah está, não está? Quem diria, em pouco mais de um ano passar de miniatura a este homenzinho! Quando dei por mim a olhar para cima só para falar com ele ia ficando parva para a vida. Mas realmente, tu é que deves estar a notar mais a diferença, não é? Mas sabes como é, ele agora está a estudar em Coimbra, nem tem tempo para visitar a família...”

    Martinho riu-se e percorreu-o com o olhar mais uma vez até se dirigir a Telma com um sorriso de troça.

    “É, tu também não fales muito que eu já não te via há uns meses!”

    “Hey, não sejas mau!” Telma exclamou, dando uma palmada no ombro do rapaz, para logo de seguida enlaçar um braço com o dele, já à espera de ser escoltada como ela tanto gostava. Segundo ela, aquela era a única coisa decente para a qual os homens serviam além de abrir latas de conserva. “Eu também tenho a minha vida, ok? Agora vamos fugir daqui antes que a tia Marília apareça aí a chorar para cima do Afonso. Shall we?”

    E um agarrado a cada braço, os dois rapazes escoltaram Telma pelo pátio da igreja, cumprimentando familiares e conhecidos. Depois de ter sobrevivido a um sermão e missa cantada da tia Alice por nunca mais ter aparecido lá por casa, Afonso estava confiante de que iria sobreviver ao resto do dia.

    TBC...

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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Dom Fev 01, 2009 11:04 am



    Título: Growing Upside Down (parte II)
    Tipo: one-shot longa
    Géneros: romance, slash, cousincest, femslash.
    Pairings: Afonso/Martinho (POs, clicar nos nomes para ver fotos, plz.)
    Avisos: same.
    Classificação: PG-17
    Notas da Autora: e aqui está a segunda parte desta história! espero que a conversa sobre yaoi não soe forçada xD idk, eu uso esse tema muitas vezes para quebrar o gelo, começo a falar com alguém que saiba o que é e o pessoal que conhece acaba por falar também ou quem não conhece pergunta logo 'ya-quê?' e eu explico e pronto, fica tudo a saber das minhas taradices 8D mas isso é bom porque assim sabem que comigo podem ser tarados à vontade, tehe. so yeah, hope you like it!


    Growing Upside Down II


    O copo de água era numa quinta conhecida de todos os membros daquela família, já ocupada para outros casamentos, baptizados, comunhões e afins. Era um sítio muito agradável, especialmente no Verão com o Sol a brilhar no pequeno jardim onde estavam a ser servidos vários aperitivos e bebidas antes do almoço que só iria começar às duas da tarde, talvez depois, como já era costume nesse tipo de acontecimento. Enquanto isso, o fotógrafo andava pelo meio dos convidados, ocupado a registrar cenas espontâneas para a posteridade. Resumindo, mais um álbum em que Afonso ia aparecer pelos cantos das fotos, sempre a fugir da objectiva, e Telma com um copo de uma bebida alcoólica qualquer na mão e um sorriso brilhante, sempre disposta a posar mais uma vez.

    “Tenho batom nos dentes?” ela perguntou-lhe pela milésima vez, deixando-o a pensar que se ele não fosse tão acanhado talvez não a tivesse de aturar mais o raio do batom vermelho que além de, segundo a mãe deles, ser escandaloso, tinha a tendência de se agarrar aos dentes quando menos se esperava.

    “Não.” Afonso repetiu mecanicamente, agarrando-se ao seu copo de sumo de laranja e tentando esconder-se da mãe que provavelmente o ia obrigar a comer um aperitivo.

    “Devias beber qualquer coisa alcoólica, rapaz, já és maior de idade há quase um ano.” Telma sugeriu-lhe, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha, olhando-o com aquela expressão que normalmente significava ‘Estou a tentar levar-te por maus caminhos, tenta deter-me’. Afonso encolheu os ombros e continuou a beber o sumo.

    “Tu é que és a bêbada da família.”

    Telma não desmentiu, obviamente, afinal ela gostava de beber mais que qualquer outra mulher da família, e assim os dois continuaram a observar o ambiente à sua volta. Uns minutos depois Martinho voltou a aparecer, acompanhado por Marina e Beatriz, as duas irmãs e primas mais novas dos outros três. Marina, alta, morena e de cabelos compridos, fazia um imenso contraste com Telma, branca e de cabelos muito curtos. Além disso, apenas com 16 anos, a outra rapariga já era tão alta como a irmã de Afonso e prometia vir a crescer ainda mais. A pequena Beatriz, redondinha e sorridente com um enorme par de pestanas a emoldurar-lhe os olhos, continuava tão hiperactiva como sempre.

    “Olá meninas!” Telma cumprimentou-as com um sorriso, chegando-se à frente para as beijar no rosto. Em segundos as duas mais velhas começaram a falar como duas comadres e a mais nova tentava entrar na conversa, muitas vezes saindo do contexto, mas aparentemente sentindo-se bastante realizada por estar a conviver com as ‘meninas grandes’. Afonso e Martinho trocaram um olhar que dizia explicitamente ‘Mulheres!’ e foi o suficiente para se aproximarem um pouco, Afonso sorrindo timidamente e tentando perceber de onde é que vinha toda aquela timidez, exactamente. Afinal eles já se conheciam desde recém-nascidos, não devia ser assim tão complicado olhar o outro rapaz nos olhos e falar sobre banalidades.

    E pensar que há uns anos atrás eles passavam todo o tempo em contacto constante, encostados um ao outro mesmo que estivessem sentados num sofá para três, falseando lutas só para se atirarem um para cima do outro, partilhando cobertores e almofadas quando fazia frio. Aliás, foi com uma aventura com cobertores e almofadas há mais de seis anos atrás que tudo começou...

    Flashback

    Mais uma tarde aborrecida no salão da avó, dessa vez cheio de gente para comemorar o aniversário da senhora. Telma, revelando o seu lado mais infantil que mantinha escondido no corpo de uma adolescente, não parava de falar de filmes da Disney com Marina enquanto que Beatriz, ainda uma bebé, se divertia a dançar sozinha. Afonso e Martinho estavam a ver televisão, mais uma vez deitados no chão em frente à lareira e usando o sofá como encosto.

    “Vamos fazer uma cabana de almofadas?” Afonso sugeriu do nada, porque ele era mesmo assim, adorava engendrar, construir, resumindo, inventar cada coisa que não lembrava a ninguém. É claro que Martinho acabava sempre por ir na dele e minutos depois estavam a completar com sucesso uma cabana construída apenas por almofadas e cobertores no pequeno escritório do lado esquerdo do salão, idêntico ao que Martinho tinha na sua casa mas ainda com restos de papel de parede floral a descascar e um conjunto de secretária e cadeira antiquíssimos como única mobília.

    “E agora?” Martinho perguntou-lhe quando já estavam dentro da cabana, deitados num cobertor porque era impossível sequer sentarem-se de tão baixa que a construção tinha ficado. Afonso encolheu os ombros e continuou em silêncio a olhar para o tecto que tinham criado a partir de um lençol velho que andava por lá a cobrir uma grande mala de viagem escondida atrás do bar do salão que ficava mesmo ao lado da pequena sala.

    Naquele momento não tinha pensado muito nisso, mas no fundo ele estava à espera que algo acontecesse ali. Ambos estavam. Aquela tensão sexual que Afonso era novo demais para perceber estava lá e anos mais tarde ele ainda se viria a lembrar desses momentos em que só lhe apetecia atirar-se para cima do primo e fazer
    qualquer coisa para lhe aliviar aquele desejo mórbido.

    Não foi então surpreendente para nenhum dos dois quando começaram mais uma luta de faz-de-conta, rebolando no pouco espaço que tinham e sempre com algum cuidado para não destruir a cabana que lhes tinha dado tanto trabalho. Tudo aquilo era excitante e os dois rapazes sabiam disso, tanto que entre risos e manobras de diversão, ambos acabavam sempre por se focar ‘acidentalmente’ nas suas zonas mais erógenas, concentrando todos os movimentos para que o contacto fosse cada vez maior sem que passasse o limiar do aceitável. Já não era a primeira vez que faziam isso, Afonso lembrava-se até que a primeira vez que teve uma erecção fora com o primo por cima de si, mas naquele dia, já meio enrolados no cobertor por baixo deles e completamente desligados do resto do mundo, algo mudou.

    Afonso lembrava-se perfeitamente do momento em que percebeu que alguma coisa se ia passar. Foi quando Martinho parou a luta, levantou-se um pouco e atirou o pesado cobertor por cima deles, envolvendo-os em ainda mais escuridão e abafando qualquer som vindo do exterior daquela sala. A única coisa que se ouvia eram as respirações aceleradas dos dois rapazes, Afonso conseguia até sentir o bafo do primo a acariciar-lhe a cara, cheirando a chá verde e tarte de maçã. Foi a primeira de muitas vezes em que Afonso se sentiu tentado a chocar a sua boca com a do outro rapaz, a primeira de muitas vezes que se controlou. Mal sabia ele que anos depois esse seu impulso ainda havia de acabar com a relação dos dois de vez.

    A partir do momento em que se esconderam debaixo do cobertor, não voltaram a trocar uma palavra que fosse. Martinho apenas se limitou a fazer-lhe cócegas nas costelas, provavelmente porque não fazia ideia que passo é que havia de tomar para se aproximar mais dele, e pelo caminho foi-lhe subindo a camisola, expondo a barriga exageradamente magra de Afonso ao ar frio daquela casa e tocando-a com os seus dedos igualmente gélidos. A certa altura as ‘cócegas’ passaram da barriga para a frente das calças e a partir daí ambos sabiam muito bem o que é que iam fazer, mas nenhum dos dois quis parar. A ideia de que estavam a fazer algo proibído estimulava-os ainda mais e em segundos ambos tinham uma mão dentro dos boxers do outro e mesmo assim não conseguiam parar de dar risinhos histéricos, por muito que tentassem não fazer barulho.

    Mas os risos foram rapidamente substituídos por respirações freáticas e minutos depois ambos concordavam que sentir a mão de outra pessoa era muito mais excitante do que fazê-lo sozinho. Pode-se dizer que essa foi a primeira vez, mas não foi a última.

    End of Flashback


    “Afonso? Estás cá?”

    O pequeno Martinho das suas memórias desapareceu para ser substituído por um outro muito maior parado à sua frente, a olhá-lo com um sorriso estranho. Afonso piscou os olhos e levou a mão à nuca, despenteado um bocado o cabelo como costumava fazer sempre que ficava nervoso.

    “Desculpa, estava distraído.”

    “A pensar em quê?”

    Em ti. “Nada demais.” Afonso acabou por mentir, olhando para o lado com medo que os seus olhos o denunciassem.

    “Alguma miúda?” Martinho perguntou com aquela carinha marota que já era a sua imagem de marca e ele já devia ter previsto que a conversa ia acabar aí. Afinal Martinho sempre fora o mais hormonal dos dois e pelos vistos não tinha mudado só porque já atingira a maior-idade.

    “Nah.” foi a sua simples resposta, juntamente com um pedido silencioso a todas as divindades que o pudessem ouvir para que aquela conversa não continuasse. Surpreendentemente o além parecia estar em sintonia com ele porque Martinho não insistiu mais, apenas assentiu com a cabeça e continuou a beber o que parecia ser também sumo de laranja. Afonso sorriu para si mesmo e olhou para o lado, observando a sua irmã e as suas primas numa conversa animada.


    .


    “Oh, que. Fofo. A mesa dos jovens.” Telma falou mal viu a lista da disposição dos lugares pelas várias mesas espalhadas pelo grande salão de festas, cujas paredes de vidro e o tecto estavam decorados por enormes faixas de tecido creme. “Porque é que eu tinha que ficar na mesa dos jovens? Eu já sou uma adulta há 3 anos, ok? Três!” ela continuou-se a queixar, obviamente desagradada pelo lugar que lhe atribuíram numa mesa reservada para jovens maiores de 16, ou pelo menos a pessoa mais nova lá sentada, Marina, tinha 16 anos.

    “Quer dizer, olha só para o lugar dos pais. Ficaram aqui com a Mena e o Tiago, aqueles amigos dos tios! Gosh, se eu alguma vez vi uma mulher que pudesse ser rotulada como MILF, esse alguém foi a Mena.”

    Afonso torceu o nariz e tentou apagar da sua memória mais uma confissão da sua irmã, daquelas que ela tinha a mania de lhe fazer quando ele menos esperava. Sinceramente, lá porque ele já tinha idade para compreender as taradices dela não queria dizer que estivesse interessado em sabê-las!

    “Demasiada informação!” ele disse apenas, observando com algum nervosismo que, obviamente, tinham-no sentado mesmo ao lado de Martinho. Por alguma razão já nada o surpreendia naquele dia.

    “I know right, eu sou a Rainha do TMI.” Telma continuou a falar, mais para si que para outra pessoa, como já era habitual. “Vai-te habituando!”

    “Habituando a quê?” ouviu-se a voz de Martinho atrás deles e não tardou muito para que o rapaz apoiasse um braço sobre os ombros de cada um dos primos, fazendo com que o coração de Afonso saltasse uma batida e tirando-lhe as palavras durante uns segundos. Quando falou, podia jurar que soava um bocadinho sem fôlego.

    “Ás pancas da Telma, não ligues.”

    “Hey!” ela exclamou em ultraje quando Martinho se começou a rir, dando-lhe uma sapatada no peito, mas acabando por rir com ele também. “Não subestimem as minhas pancas. E o que é isto?” ela perguntou, agarrando no copo que o primo tinha na mão.

    “Sumo de laranja.” ele respondeu, fazendo com que Telma se livrasse do braço dele nos seus ombros para tomar um gole da sua própria bebida antes de começar a caminhar em direcção ao lugar que lhe fora reservado, perguntando em alto e bom som “Sumo de laranja? Mas afinal onde é que estão os homens desta família?”

    Não tardou muito para que o pai deles aparecesse para se meter com ela, também ele com um copo na mão, muito provavelmente de whisky ou algo do género. Bom, afinal ela sempre tinha a quem sair.

    E enquanto Martinho se continuava a rir da situação, Afonso mantinha-se quieto e mortificado com o braço do primo a prendê-lo e a deixá-lo cada vez mais nervoso. Mas afinal qual era a dele? Se a memória não lhe falava, tinha sido o outro rapaz que se havia afastado mais, não ele. Toda aquela aproximação lembrava-o demais da última vez, a vez que ele não pretendia nem ia repetir, muito obrigado.

    “Vamos?” ele sugeriu, tentando afastar-se do outro rapaz sem dar muito nas vistas. Felizmente Martinho parecia estar muito preceptivo e acedeu logo ao pedido, incentivando Afonso a caminhar em direcção à mesa com uma palmadinha nas costas e um sorriso amigável.

    Aquele sorriso estava a fazer coisas estranhas ao coração dele e Afonso não sabia – ou não queria – explicar porquê.
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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Dom Fev 01, 2009 11:06 am



    Uns minutos depois já todos os convidados estavam sentados nos respectivos lugares e conversavam animadamente. Telma e Marina pareciam estar muito divertidas a falar sobre algo chamado ‘yaoi’ – mais uma das pancas da irmã que Afonso preferia não saber, julgando pela cara de tarada que ela fazia sempre que falava disso – e ele ia participando da conversa que estava a ter com Martinho e um primo em segundo grau, Pedro, sobre jogos de computador. E até estava tudo a correr muito bem, não fosse Pedro ter referido o único jogo que Afonso já não jogava há quase dois anos.

    A julgar pelo silêncio de Martinho, também ele se lembrava muito bem do que é que ambos tinham feito depois de jogarem esse jogo em questão.

    “Eu já não jogo isso há muito tempo, por acaso.” Martinho acabou por dizer, pegando de seguida no copo de água à sua frente para beber um gole.

    “Nem eu.” Afonso acrescentou, tentando em vão acabar ali com a conversa. Mas o outro rapaz parecia muito entusiasmado e continuou a falar animadamente de uma extensão nova para o jogo que tinham acabado de lançar. Afonso e Martinho já nem sequer se conseguiam olhar nos olhos, quando uma conversa paralela os salvou miraculosamente.

    “Desculpem,” falou uma rapariga provavelmente com a mesma idade da irmã de Afonso, de ar um pouco sisudo e cabelos escuros e encaracolados, amarrados num rabo-de-cavalo. “vocês não estão a falar daqueles desenhos animados japoneses sobre...”

    Telma, para quem a palavra tinha sido dirigida, limitou-se a sorrir-lhe e a completar a frase.

    “Gays?”

    “Ya, isso.” a rapariga concordou, continuando com aquele ar sério, mas sem torcer o nariz ou fazendo algo que deixasse transparecer que tivesse algum problema com homossexuais. Realmente, Afonso pensou para si mesmo, aquela cara não lhe era nada estranha. Provavelmente a expressão natural da rapariga era mesmo aquela de quem precisa relaxar um bocadinho de vez em quando. A julgar pelo sorriso predatório da irmã, algo lhe dizia que esse era exactamente o tipo dela.

    “Porquê, já viste?” Telma perguntou-lhe, trocando um olhar conspirativo com a prima Marina e voltando-lhe a sorrir.

    “Não, mas já ouvi falar.” a rapariga explicou. “Tinha umas amigas que viam.”

    “Oh.” Telma assentiu com a cabeça e abriu a boca em ‘O’ de uma forma que era simplesmente sedutora demais para não ser encenada. “E Yuri, anime lésbico.” ela continuou, e Afonso já estava a ver a conversa a descambar. “Já experimentaste? Ver, I mean.”

    Ouch. Aquela tinha sido uma das frases de engate mais ÓBVIAS que Afonso tinha ouvido em toda a sua vida. E tinha logo que ser da boca da irmã! A mesma regra que ela tinha para ele sobre o ‘ser assexuado’ também se devia aplicar a ela, não? E se o resto da mesa não tivesse percebido até aí que ela jogava para a equipa contrária, então aí é que já não restavam dúvidas. Felizmente estavam entre jovens, por isso existia a esperança de que ninguém levasse muito a sério. E foi o que aconteceu aparentemente porque a rapariga apenas deu uma gargalhada e sorriu pela primeira vez desde que se tinha sentado naquela mesa.

    “Não, mas qualquer dia vejo.”

    “Espero que sim!” Telma exclamou com um sorriso, agarrando de seguida no garfo pousado à sua frente e começando a bater no copo para chamar a atenção do resto da mesa. “Ok gente, se nos puseram todos juntos numa mesa e nos deixaram aqui duas garrafas de vinho, por alguma razão foi. Por isso toca a beber e a socializar, vá lá, peguem nos vossos cartõezinhos e virem-nos para a frente para eu vos ver os nomes... Isso, muito bem! Agora encham esses copos, vá...”

    E assim a refeição continuou, com Telma a tentar desencaminhar os mais novos e Afonso a dar graças por ter uma irmã com uma queda para mudar assuntos.


    .


    Umas horas mais tarde, depois de terem aberto a mesa das sobremesas, Afonso aproveitava para fugir um bocadinho à companhia do primo que o estava a deixar cada vez mais zonzo – ou era disso ou do álcool que ele tinha acabado por beber. E não era só a presença dele como eram os olhares, aqueles olhares momentâneos que não deixavam dúvidas: Martinho lembrava-se de tudo o que se tinha passado tanto como ele.

    Nas poucas vezes que estiveram juntos desde então, Afonso nem sequer havia trocado olhares com o outro rapaz – daí a surpresa dele de cada vez que Martinho deixava transparecer tanta angústia como aquela que ia no seu coração. E ambos tinham crescido. Ambos sabiam exactamente o que se tinha passado ali e como Afonso tinha passado os limites e demonstrado algo que devia ter mantido apenas para si. Mas naquele momento já era tarde para remorsos, apenas lhes restava esquecer.

    Se ao menos ele conseguisse tal feito...

    “Vais comer isso ou estás só a fazer levantamento de pesos com a faca?”

    Era Telma, com um prato na mão, à espera de se servir do cheesecake à sua frente, do qual ele tinha retirado a faca para ficar inconscientemente com ela na mão a olhar para os outros bolos enquanto pensava na vida. Rapidamente tratou de lhe dar o talher para a mão com um riso propositadamente falso para disfarçar e voltou à tarefa de escolher mais uma sobremesa.

    “Então, estás-te a divertir?” ela perguntou-lhe, sabendo muito bem qual era a resposta, mas aparentemente tirando algum tipo de prazer de o atormentar.

    “Nem por isso.”

    “Pois, acredito. Aquele Pedro é um nerd incurável, não achas?” ela continuou a falar, servindo-se de uma quantidade exurbitante de doces que nunca ninguém acreditaria que ela seria capaz de comer – a não ser Afonso e as restantes pessoas que já lhe conheciam os hábitos. “Já tem mais que idade para pensar em mais alguma coisa que não sejam jogos de computador. Eu conseguia ver-vos a bocejar de longe!”

    “Ver-nos?”

    “A ti e ao Martinho.” Telma explicou, sorrindo um bocadinho depois com aquele sorriso assustadoramente maternal. “É bom ver-vos juntos outra vez.”

    Afonso engoliu todas as palavras que lhe apetecia dizer juntamente com as mentiras e o orgulho e apenas de limitou a assentir com a cabeça, tentando antes mudar de assunto.

    “E tu, estás a gostar da festa?”

    “Oh, a adorar! A Filipa é super simpática, apesar de não parecer, e aquele olharzinho de má... E eu já a tinha de olho há séculos! Aqui há coisa de um ano via-a quase todas as semanas na cantina da Universidade dela quando ia lá almoçar com a Maria, aquela amiga minha que também andava lá, mas nunca tive coragem para falar com ela, apesar de já ter o feeling de que ela joga para a minha equipa há muito tempo.”

    Afonso deu uma risada seca e lançou-lhe um olhar completamente céptico. “Tu? Falta de coragem? Chamem a televisão... ou um médico.”

    “Ah-ah, que piadinha que temos.” Telma comentou com um sorrisinho falso, acabando finalmente de se servir de todas as sobremesas que queria levar. “Ela intimidava-me, sei lá.”

    “Ou seja, faz o teu género.”

    “Exacto.”

    E ao ver aquele sorriso predatório outra vez na cara da irmã, Afonso decidiu que era melhor sair dali, e era se ele queria manter a sua inocência intacta. Dirigiu-se então logo de seguida para o seu lugar na mesa, ao lado de Martinho e Pedro, porque sempre era melhor levar uma seca do que levar com a realidade.

    Entretanto Pedro continuava imparável no seu discurso e Martinho parecia ter conseguido roubar a bebida a alguém visto que estava proibído de beber álcool e o copo que tinha na mão estava cheio de vinho. Situações drásticas pedem medidas drásticas, mas com certeza poderia haver alguma forma de o ajudar a sobreviver àquele dia que não o pusesse em perigo de levar um sermão da mãe, não?

    “Não estás proibído de beber álcool por causa das cólicas?” Afonso perguntou-lhe mal se sentou a seu lado. Ambos tinham um intestino bastante irritável, Martinho mais que ele porque também tinha uma tendência muito maior para ingerir porcarias, mas Afonso sabia muito bem a que grau podiam chegar as dores lancinantes.

    “Como é que sabes?” Martinho perguntou-lhe com um arzinho tão petulante que por momentos Afonso pôde ver um relance da criança que ele fora um dia. Era óbvio que o mais inconsciente dos dois ainda havia de ser o que iria demorar mais tempo a crescer, mas até àquele momento Martinho tinha-se comportado como um adulto. Provavelmente aquele já não era o primeiro copo que ele tinha bebido naquela tarde, portanto.

    “A tua mãe não foi lá muito discreta quando veio aqui à mesa lembrar-te o que podes ou não podes comer.”

    “Ah.” Foi o único som que Martinho emitiu antes de voltar a tomar um gole de vinho e de olhar em volta, não fosse a mãe ter visto alguma coisa. A seguir tratou de oferecer a si mesmo uma fatia de tarte de maçã, a sua favorita, retirando-a sem qualquer tipo de cerimónia do prato do primo e devorando-a em três dentadas.

    “Hey! E pedires, não?” Afonso ripostou, irritado, puxando o prato para si e tentando não olhar para a expressão completamente deliciada estampada na cara do outro rapaz. Martinho limitou-se a rir e a levar um dedo à cobertura avermelhada do cheesecake, levando também junto uma boa porção do creme antes de lamber o seu próprio indicador com um ar tão despreocupado que nunca poderia ser forçado.

    Mesmo assim Afonso viu-se obrigado a usar todo o seu autocontrole para não pegar ele naquele dedo e enfiá-lo na sua própria boca sem cerimónias.

    Em vez disso também ele passou o dedo pelo cheesecake antes de o levar à cara do primo para o deixar com uma mancha vermelha e branca na ponta do nariz. Martinho riu-se ainda mais, como era habitual nas brincadeiras que faziam quando eram mais novos, e pôs-se a tentar chegar com a língua ao creme, conseguindo apenas fazer figura de parvo. Quando deu por si, também Afonso já se estava a rir às gargalhadas, enquanto que Pedro os observava como se fossem malucos.

    “Mas quem é que são os recém-casados aqui, afinal?” o rapaz comentou entre risos, fazendo com que as risadas dos outros dois fossem imediatamente substituídas por um silêncio um bocadinho constrangedor. “Primeiro é ’Ai amor, cuidado com as cólicas!’ e depois põem-se a brincar com a comida... já agora vão lá abrir o bolo de uma vez para começarem a servir o champanhe, está-me a apetecer um copo!”

    Martinho começou a rir outra vez, mas o seu riso era seco, o seu sorriso sem qualquer emoção. Foi o suficiente para Afonso perceber que esses comentários tinham deixado de ter piada há muito tempo atrás.

    Flashback

    Há uma semana que não se falava de outra coisa quando o assunto era a família da mãe de Afonso. Martinho, com os 15 anos acabados de fazer, tinha passado pela sua pior crise dores intestinais, acabando no hospital durante um dia inteiro e preocupando toda a gente.

    Já não era a primeira vez que alguma coisa grave lhe acontecia. A primeira foi uma pneumonia aos 12 anos que o deixou de cama durante duas semanas e o obrigou a tomar precauções extra com temperaturas, esforços e afins para o resto da sua vida. Ninguém esperava que ele fosse ter uma saúde tão frágil: afinal tinha sido Afonso a nascer prematuro, indo quase parar à incubadora e era ele o mais pequeno e frágil dos dois, o mais introvertido também. Mas a verdade é que a saúde de Martinho acabava sempre por se revelar mais instável e foi numa tarde de domingo, uma semana antes, que tudo voltou a ficar problemático.

    As dores começaram aos poucos, como já era habitual. Afonso e Martinho estavam sentados na mesma poltrona, ainda eram magros o suficiente para caberem os dois, com a televisão da cozinha montada ao lado da televisão do salão da avó e uma consola ligada ao pequeno ecrã, onde ambos jogavam um jogo de carros. Telma não parava de se queixar que estavam a fazer um barulho infernal e que nem conseguia ver televisão, mas nenhum dos dois deu o braço a torcer, continuaram a jogar, até que Martinho se começou a mexer muito e deixou o comando para o primo, acabando por se deitar no sofá maior que Telma ocupava sozinha. Afonso perdeu imediatamente o interesse no jogo e focou a atenção na expressão de dor do outro rapaz, acabando por se ajoelhar em frente do sofá, perguntando-lhe o que se passava. Martinho disse que era apenas uma pequena dor de barriga, que ia passar.

    Uns minutos depois Martinho tinha a cabeça pousada no colo de Afonso, algo que entre eles nunca fora estranhado pela família, e continuava a contorcer-se de dores. Ao final da tarde, um pouco antes de Afonso voltar para casa com o resto da sua família, Martinho já tinha sido levado pelos pais até ao hospital mais próximo, onde ficou uma noite e um dia.

    Isso tinha sido há uma semana e Afonso estava ansioso por voltar a ver o primo de perfeita saúde, com o seu sorriso habitual na cara e a sua disposição sempre fantástica. Martinho era tão extrovertido e alegre que custava ainda mais vê-lo em baixo, nem parecia a mesma pessoa.

    Foi por isso que quando ele entrou pela cozinha adentro com o mesmo sorriso de sempre e lhe despenteou o cabelo, Afonso sentiu um alívio enorme, como se lhe tivessem tirado um peso do peito.

    Durante o resto da tarde os dois mantiveram-se muito próximos. Afonso foi um pouco a medo, como se ainda não estivesse muito certo se poderia ou não tratá-lo como o habitual, apenas se sentando no sofá e deixando que o outro rapaz apoiasse as costas e a cabeça contra as suas pernas enquanto se sentava no chão. Mas quando Martinho começou mais uma daquelas lutas infantis, mostrando que estava bem de saúde e pronto para outra, Afonso não hesitou e deu tão bem como recebeu, deixando-se levar por aquela vontade inexplicável de tocar o outro rapaz mais uma vez, atirando-se para cima dele, dobrando-lhe as pernas até o fazer gritar entre gargalhadas, fazendo-lhe cócegas nos pés, entre outras coisas que só lhes arranjaram um bom sermão dos pais que pela primeira vez em muito tempo chegaram ao ponto de ficarem saturados com tanta gritaria e comoção. Acabaram depois por recorrer aos ataques verbais, que basicamente consistiam em inventar nomes carinhosos um para o outro ou até chamarem-se pelas alcunhas que as suas mães lhes tinham dado quando ainda eram bebés e que só a família mais chegada sabia. As hipóteses eram infindáveis e só faziam com que todos os outros presentes no salão se rissem ainda mais.

    No final da tarde acabaram os dois deitados no sofá, exaustos, Afonso com a cabeça apoiada nas pernas do primo, enquanto lhe tocava nos pés ocasionalmente só para o irritar, e Martinho recebendo carícias – e alguns puxões – no cabelo de uma Telma bastante sorridente.

    End of Flashback


    Esses momentos tanto pareciam ter acontecido ontem como há uma eternidade, mas uma coisa era certa, Afonso lembrava-se de todos os detalhes. E bastou-lhe olhar para o rosto sardento do primo, prendendo aqueles olhos azuis-escuros com os seus, para saber que Martinho tinha uma memória tão boa como a sua.

    TBC...

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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Dom Fev 01, 2009 3:21 pm

Oh My Fuckin' God jawdrop

Eu acho que é escusado voltar a dizer que adoro tudo o que escreves, right? Está tão fantástico & bem escrito. heart
E depois, eu gosto imenso do tema +.+ e acho que tu tens imensa imaginação & melhor/pior, eu hoje estou deprimida e os coments saem asneira pegada, peço desculpa!
Eu sei que peço imensas coisas das tuas fanfictions mas, dás-me o Afonso? ~~ eager
Pronto, já está o meu comentário feito o.o está horrivel mas isso é devido às horas & pseudo-depressão & à falta de sono - dormir 5h por dia, dá nisto. -

Beijinho hug
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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Dom Fev 01, 2009 3:52 pm

Perfeito, perfeito...TÃO perfeito!
Acho que nunca gostei tanto de ler uma one-shot de slash como estou a gostar desta, really!
Primeiro que tudo adoro a tua forma de escrever e a forma como nos "raptas" para o meio de toda esta agitada acção tão facilmente. E amo as personagens que crias, são simplesmente tão reais e plausiveis que nunca se duvida de que eles realmente existam.

ADORO, alias AMO o Afonso, tudo bem o Martinho também não lhe fica atrás, mas o Afonso não sei fangirl2 tem ali qualquer coisa naquela personalidade timida *.*
Estou ali com anny, também quero um Afonso!!!

Depois adoro profundamente a Telma e a sua personalidade tão bitchy, adoro tanto a sua faceta 'maternal' em relacção aos primos, alias eu desconfio que ali no meio daquilo tudo ela já os topou a muito tempo, e adoro aquela sua faceta bitchy!!!! xD

Resumindo estou aqui em pulgas para ler o resto Razz

Beijos Maggie

Ups! Acho que exagerei!
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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Seg Fev 02, 2009 5:10 am

anny. escreveu:
Oh My Fuckin' God jawdrop

Eu acho que é escusado voltar a dizer que adoro tudo o que escreves, right? Está tão fantástico & bem escrito. heart
E depois, eu gosto imenso do tema +.+ e acho que tu tens imensa imaginação & melhor/pior, eu hoje estou deprimida e os coments saem asneira pegada, peço desculpa!
Eu sei que peço imensas coisas das tuas fanfictions mas, dás-me o Afonso? ~~ eager
Pronto, já está o meu comentário feito o.o está horrivel mas isso é devido às horas & pseudo-depressão & à falta de sono - dormir 5h por dia, dá nisto. -

Beijinho hug

oooww thank you *_*
i know riiiite, o Afonso é um doce! aww glad you like him.
&& don't worry, eu ando a dormir demais e tb ando a ficar um bocadinho depré porque me sinto bué inúltil :O it's dumb but wtvvv.

Maggie Black escreveu:
Perfeito, perfeito...TÃO perfeito!
Acho que nunca gostei tanto de ler uma one-shot de slash como estou a gostar desta, really!
Primeiro que tudo adoro a tua forma de escrever e a forma como nos "raptas" para o meio de toda esta agitada acção tão facilmente. E amo as personagens que crias, são simplesmente tão reais e plausiveis que nunca se duvida de que eles realmente existam.

ADORO, alias AMO o Afonso, tudo bem o Martinho também não lhe fica atrás, mas o Afonso não sei fangirl2 tem ali qualquer coisa naquela personalidade timida *.*
Estou ali com anny, também quero um Afonso!!!

Depois adoro profundamente a Telma e a sua personalidade tão bitchy, adoro tanto a sua faceta 'maternal' em relacção aos primos, alias eu desconfio que ali no meio daquilo tudo ela já os topou a muito tempo, e adoro aquela sua faceta bitchy!!!! xD

Resumindo estou aqui em pulgas para ler o resto Razz

Beijos Maggie

Ups! Acho que exagerei!

AAWWW obrigadaa eager
ainda bem que isto soa realista, a verdade é que me baseei muito em pessoas que conheço mas precisei de acrescentar muitos traços de personalidade para lhes dar um toque mais adulto, e as situaçoes foram inspiradas em coisas que se passaram e me levaram a imaginá-las (e a distorcê-las lulz), so yeah, isto é um bocadinho de realidade e muita imaginação a mais xD precisava mesmo de escrever isto e estou a ADORAR, srsly, fico mesmo feliz q as outras pessoas também gostem aww
E viva a fofura do Afonso, tehe heart

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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Ter Fev 03, 2009 4:03 pm

OMFG!

Provo que o meu sentido de escolha não está minimamente extraviado, foi a primeira one shot - Slash, que li e simplesmente adorei! A tua escrita é muito, muito boa!

Espero pela proxima parte Wink
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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Qua Fev 04, 2009 5:48 pm

Mollie escreveu:
OMFG!

Provo que o meu sentido de escolha não está minimamente extraviado, foi a primeira one shot - Slash, que li e simplesmente adorei! A tua escrita é muito, muito boa!

Espero pela proxima parte Wink

omg thank you soooo much *_*
vou postar a última parte amanha (ou melhor hoje, já pasa da meia noite) so yeah, stay tunned Cool

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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Qui Fev 05, 2009 12:16 pm



    Título: Growing Upside Down (parte III)
    Tipo: one-shot longa
    Géneros: romance, slash/, cousincest, femslash.
    Pairings: Afonso/Martinho (POs, clicar nos nomes para ver fotos, plz.)
    Avisos: same.
    Classificação: PG-17
    Notas da Autora: e esta é a terceira e última parte desta fic. adorei escrevê-la, confesso, e espero que gostem do resultado! glomp


    Growing Upside Down III


    Era já final do dia e o pôr-do-sol de Verão podia ser sentido pela luz alaranjada que trespassava as paredes envidraçadas do salão de festas onde gargalhadas, vozes, talheres e agora música animada o enchiam de som, de vida. Não tardava muito para se fazer noite, até porque as velas que ocupavam o centro de cada uma das mesas circulares já tinham sido acesas e as luzes dos majestosos candeeiros pendidos do tecto já estavam ligadas.

    No meio de toda aquela luz, Afonso perdia-se nos seus pensamentos com o olhar preso nos cabelos do primo que reflectiam dourados, ainda mais que o seu tom de pele ou as suas pestanas, também loiras e tão longas quanto as suas, talvez mais. Era um bocadinho difícil disfarçar, mas desde sempre que aquela aura o prendia e talvez Martinho já estivesse habituado a isso porque não deu sinais de se importar de estar a ser observado. Pedro tinha mudado de audiência e naquele momento os dois primos estavam sozinhos, em silêncio, a observar os vários convidados que dançavam numa pista improvisada num espaço liberado por várias mesas que foram puxadas para trás e para os lados.

    A música era horrível, como já era habitual naquele tipo de acontecimento, mas isso não desmotivava pessoas como Telma ou o pai deles de dançar com a maior das vontades. Naquele momento os dois rodopiavam pelo pavimento, Telma e o pai, ao som de uma música qualquer com ritmos latinos, daquelas que toda a gente conhece e que acaba sempre por empurrar uns quantos casais lá para o meio, cada um a mostrar a sua habilidade, principalmente os homens mais velhos que ainda se orgulhavam de conseguirem dar uns passinhos de dança. Momentos depois a mãe deles lá ganhou coragem e Telma cedeu-lhe o seu lugar, acabando por agarrar Filipa pela mão para surpresa da rapariga e puxando-a consigo para o meio da pista improvisada, fazendo-a dançar practicamente à força e agarrando-a com pouca subtilidade. Podiam então dar graças pelo facto de serem ambas raparigas e de metade dos presentes naquela sala estarem demasiado bêbados para desconfiarem de alguma coisa. Nem a mãe tinha reparado! Também já devia estar um bocadinho alterada, provavelmente não faltava muito para desatar a fazer um comboio com as primas ao som da música do Senhor de Matosinhos, com certeza. Nem esses pequenos pormenores mudavam.

    “Estás tão grande, Fonzie.” Martinho disse do nada, surpreendendo Afonso que se viu observado de volta por um par de olhos azuis que brilhavam e sorriam ainda mais que a boca. Nunca na sua vida ele tinha visto o primo com tal expressão estampada na cara. Provavelmente já não devia estar muito sóbrio.

    “Aposto que a tia Marília já chorou baba e ranho para cima de ti. ‘Ai, meu rico menino, és mesmo a carinha chapada do teu falecido avô!’” ele imitou num falsete exagerado, aproximando-se do outro rapaz e fazendo de conta que assoava o nariz no ombro dele. Afonso ficou tenso por uns momentos, o perfume de Martinho a invadir-lhe as narinas sem autorização. Era tão fresco como sempre, um perfume que lhe lembrava a brisa marítima, os raios de Sol. Ao contrário de si, que tinha preferência por cheiros mais amadeirados e quentes, Martinho era mais inclinado para aquele tipo de perfume que combinava tão bem com a sua personalidade e que se tornava inesquecível, impossível de não ser rotulado na mente de qualquer pessoa como a essência do loiro que naquele momento lhe sorria. Quantas raparigas já não se tinham rendido aos encantos daquele sorriso?

    Afonso podia sentir já aquele aperto no peito que tinha sempre associado à inveja que sentia pelo primo. Afinal ele nunca tinha tido grande sorte com as miúdas. As que se interessavam nele era apenas porque o achavam adorável na sua timidez, novidade que se extinguia depressa. Mas naquele momento já não conseguiu evitar de se perguntar a si mesmo se o aperto já não se tinha transformado noutro sentimento completamente diferente.

    “Oh, não fiques amuado!” Martinho falou num tom infantil, lendo mal a expressão séria na cara do primo, para bem dos pecados dele. Afonso limitou-se a dar-lhe um meio-sorriso e uma palmada na cabeça, conseguindo que o rapaz finalmente se afastasse um pouco, e não falou, como já era habitual naquele tipo de situações em que não queria dar a notar de que estava constrangido. Ficaram mais uns momentos em silêncio, apenas a observar os restantes convidados, até que Martinho se levantou num impulso e lhe falou com um sorriso maroto estampado na cara.

    Uh-oh.

    “Vai indo para a porta que eu já lá vou ter, ok? Vou só buscar uma coisa.”

    “Que é que vais fazer?” Afonso perguntou-lhe logo, já desconfiado de que dali não podia vir coisa boa. Mas Martinho apenas lhe sorriu novamente, deixando-o a amaldiçoar o poder que aquele simples gesto tinha sobre ele, e foi-se, desaparecendo pela porta de saída do salão de festas num passo apressado.

    E por muito que tivesse prometido a si mesmo que nunca mais se metia numa das ideias mirabolantes do outro rapaz, Afonso sabia que ia acabar por alinhar, como sempre. Momentos depois lá estava ele, encostado na vidraça que o separava dos barulhos vindos do salão, observando as sombras das várias árvores dos jardins da quinta criadas pelo lusco-fusco e sentindo um friozinho na barriga que definitivamente não devia estar ali. E quando Martinho chegou com uma garrafa de vinho branco e dois copos na mão, a primeira coisa que passou pela cabeça de Afonso foi que ele já devia ter previsto algo do género.

    “Anda.”

    Afonso, mesmo não sendo grande apreciador de vinho ou de bebedeiras, seguiu-o sem questões. Talvez porque não queria dar parte de fraco, talvez porque a ideia de estar longe daquela multidão toda lhe parecia bastante atractiva... ou talvez porque a ideia de estar longe daquela multidão e sozinho com o primo lhe agradava mais do que devia. Não sabia ao certo, mas também não queria pensar muito nisso.

    A ideia de apanhar uma bebedeira também lhe estava a soar cada vez melhor, definitivamente.

    Acabaram por se sentar no relvado dos jardins da quinta, encostados ao tronco de uma grande árvore que os escondia dos convidados que pudessem eventualmente passar pelo passeio de pedra ladeado por arbustos que ligava o portão da quinta à entrada do salão de festas. Estavam tão próximos que os seus ombros e antebraços tocavam-se, afinal era inevitável, mas mesmo assim Afonso não conseguia evitar aquela sensação de desconforto que não o deixava relaxar. Era errado, era estúpido, era completamente incompreensível... mas tocar no primo já o deixava assim, alterado e definitivamente assustado, porque aquilo não devia ser assim! Por momentos deu por si a perguntar-se o que preferia: se o desejo de toque constante que sentia há mais de um ano atrás ou aquela sensação quase contrária, mas não totalmente, obviamente incutida por vários meses de negação que tinha imposto a si mesmo e que não tinham dado em nada, se os pensamentos que iam pela cabeça dele pudessem ser tidos como exemplo.

    Um copo cheio de vinho foi-lhe dado para a mão, copo esse que ele bebeu de uma golada só. Martinho deu uma risada quando Afonso lhe devolveu o copo vazio, mas não disse nada, limitando-se a enchê-lo de novo, pousando depois a garrafa entre as suas pernas. Os dois beberam em silêncio, dessa vez mais calmamente, assistindo à chegada da noite que os ia rodeando de uma escuridão gradual e quase tão anestesiante como o vinho que bebiam.

    “Não devias beber tanto.” Afonso falou quando se fartou daquele silêncio que só o fazia ter pensamentos ridículos. Por mais que tentasse, não se lembrava de uma única ocasião em que a ausência de som o tivesse perturbado tanto como naquele momento, talvez porque também não se conseguia lembrar de alguma vez ter passado tanto tempo em silêncio com o primo. Martinho deixou a cabeça cair para trás com um som seco e esticou as pernas à sua frente, suspirando.

    “Hoje é um dia especial, ok? Eu mereço.”

    “Tu não és o noivo.” Afonso retorquiu após ter levado o copo à boca e dado mais um gole. Martinho virou a cara na sua direcção, arrepiando-lhe a espinha com um simples olhar que ele nem conseguia ver, só imaginar. Afonso culpou o vinho.

    “Mas sou o irmão.”

    E a discussão ficou por aí, até porque estavam os dois a perder a capacidade de raciocinar correctamente e beber parecia uma melhor opção.

    Não tardou para que a garrafa acabasse e a noite chegasse. O ar estava fresco, mas agradável, típico de uma noite de Verão, e por momentos Afonso limitou-se a inspirar o cheiro da relva e das folhagens, deixando que o seu corpo comunicasse com a natureza, a mesma natureza que nunca o tinha deixado ficar mal quando precisava de alguma coisa para o ajudar a descontrair – afinal era ele o rapaz da família que mais apreciava o campo, o orgulho do pai. Porém, junto com o cheiro a relva acabada de cortar, vinha o perfume do primo, perfume esse que o tornava cada vez mais consciente da presença do outro rapaz mesmo do seu lado, colado a si, com a cabeça tão próxima da sua que não tardava nada estava a cair no seu ombro.

    “’Tava com saudades tuas, pá.” Martinho disse do nada, acabando por finalmente pousar a cabeça no ombro do outro rapaz. Afonso sentiu o seu coração quase a saltar-lhe para fora da boca, mas não deu sinais disso, apenas se manteve em silêncio enquanto pensava em alguma coisa decente para dizer. Acabou por não dizer nada, Martinho falou antes dele, outra vez naquele tom infantil que mostrava perfeitamente o quão alterado ele estava.

    “Porque é que nunca mais apareceste por lá?”

    Afonso controlou-se para não bater compulsivamente com a cabeça no tronco atrás de si, tal era a sua indignação, e falou com o máximo de calma que conseguiu reunir dentro da sua cabeça que não tardava muito iria começar a entrar em colapso.

    “Pensei que a razão fosse um bocadinho óbvia...”

    “Oh! Sim, pois, o beijo... Não foi nada demais, eu nem fiquei chateado contigo, só um bocado... estranho.” Martinho falou num tom despreocupado, deixando Afonso com um sentimento de vazio dentro de si que ele não queria explicar, definitivamente. É claro que não tinha sido nada demais, até porque— “Até porque aquela nem foi a primeira vez, eh.”

    Uh? Agora é que ele não estava a perceber nada. Como assim ‘nem foi a primeira vez’? O outro rapaz ria-se, mas Afonso não estava a achar piada nenhuma. Porque ele até podia estar bêbado, mas não o suficiente para se esquecer do facto de que tinha beijado o primo mais que uma vez. Não, isso não tinha acontecido.

    “Oh Martinho, desculpa lá, mas eu acho que não sofri de amnésia nos últimos tempos...”

    “Não, a sério!” Martinho exclamou, levantando-se um bocadinho e sentando-se de pernas cruzadas à frente dele, por alguma razão com o olhar preso no chão, evitando olhá-lo nos olhos a todo o custo. “Lembras-te daquela noite de Natal em que ficamos os dois a dormir na sala da avó? E depois nós...”

    E depois acabaram os dois debaixo de uma montanha de cobertores com as mãos dentro dos boxers um do outro, a fazer o mesmo que faziam sempre que estavam sozinhos e com as hormonas aos saltos. Afonso virou a cara para o lado, não conseguiu evitar, aquela conversa já o estava a deixar tão constrangido como excitado e só o vulto do outro rapaz já o afectava ao ponto do insuportável, assim como aquele silêncio que ele se viu obrigado a quebrar.

    “Sim...”

    “Pronto, aquilo aconteceu outra vez e depois tu adormeceste e eu não conseguia, porque a lareira ainda estava acesa e eu habituei-me a dormir no escuro. As faúlhas que subiam pela chaminé distraíam-me, pareciam pirilampos e—”

    Outra pausa, provavelmente porque Martinho reparou que já estava a fugir do assunto. Continuou de cabeça baixa, ocupando as mãos com as mangas da camisa branca que vestia, um gesto nervoso que não era nada habitual na sua sempre confiante postura. O ambiente ficou ainda mais carregado e a respiração de Afonso estava a ficar cada vez mais profunda, levando-o até a contê-la por uns segundos.

    “Então eu virei-me para o outro lado e a tua cara estava mesmo ali e eu, olha pronto, eu dei-te um beijo. Mas foi só um bate-chapas, juro! E depois eu acordei sozinho e fiquei com medo que te lembrasses de alguma coisa, por isso passei o resto do ano a gozar contigo por teres ido dormir para a cama dos teus pais. Mas eu só queria tentar ver se tinhas alguma reacção! Desculpa se fui parvo.”

    Todas aquelas revelações quase que o deixaram sem fôlego. Afonso lembrava-se perfeitamente dessa noite, de ter ido dormir para a cama onde os pais estavam a passar essa noite, porque acordou de madrugada e não conseguia voltar a dormir com o outro rapaz colado a si. Lembrava-se também das várias vezes que foi gozado por isso, ainda para mais porque lá em casa era algo que ele fazia várias vezes, ir dormir para a cama dos pais, e a mãe até teve que avisar a Telma para não se descair, não fosse o primo descobrir. Mas afinal tinha sido por causa de um beijo? E porque raios é que ele não acordou? Por momentos apeteceu-lhe enterrar a cabeça debaixo da terra até aquilo tudo passar, mas um olhar na direcção do outro rapaz obrigou-o a falar.

    “Não tem mal.” ele disse com um pequeno sorriso quando reparou na expressão preocupada do primo. Martinho sorriu-lhe de volta, um sorriso tímido que não combinava com ele, definitivamente, mas que também fazia coisas estranhas com o coração de Afonso. E aí ele ainda tentou voltar a repreender-se a si mesmo mentalmente, mas depois de todas aquelas confissões, uma réstia de esperança ateou um pequeno fogo dentro do seu peito que teimava em não apagar.

    “Hey, mas eu posso compensar-te!” Martinho exclamou, sentando-se em cima dos seus calcanhares e voltando à sua expressão habitual de quem anda sempre a aprontar alguma. Afonso arqueou uma sobrancelha e lançou-lhe um olhar céptico.

    “Ah podes?”

    “Ya, eu nunca cheguei a retribuir o favor da última vez, não foi?”

    Demorou-lhe um bocadinho a ligar aquele sorrisinho maroto à frase que lhe tinha acabado de sair da boca e a que favor, exactamente, ele se estava a referir, mas quando isso aconteceu, Afonso tinha a certeza que o seu coração havia saltado umas quantas batidas. A frase ‘Anda lá, eu depois faço-te um.’ tocava na sua mente como um disco riscado e uma sensação estranha percorria-lhe as entranhas, desde a barriga até à boca, como uma enorme gargalhada a querer escapar-lhe dos lábios que havia pressionado numa linha fina, mesmo que ele não estivesse com vontade nenhuma de rir.


Última edição por ritalavalerie. em Qui Fev 05, 2009 12:24 pm, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Qui Fev 05, 2009 12:20 pm



    “Quê? Ah não, não é preciso, eu—” ele tentou falar, mas Martinho foi mais rápido que ele e aproximou-se num movimento impulsivo, apoiando uma mão no seu ombro e outra no meio das suas pernas, apertando ao de leve e deixando muito bem explícitas as suas intenções. Afonso soltou um pequeno gemido involuntário e fechou os olhos, com medo do que seria capaz de fazer caso voltasse a ver aquele olhar tão perturbador no rosto do primo. Era quase como o outro olhar que ele lhe tinha dado à porta da igreja, mas sem qualquer espécie de restrição. E era tão assustador como excitante, tal como tudo o que dizia respeito aos seus sentimentos pelo dono daquele bafo quente que lhe acariciava o rosto, cheirando a doces e a vinho e deixando-o ainda mais confuso e atordoado. Quando Martinho voltou a falar, o seu tom e as suas palavras foram como um choque eléctrico que se descarregou desde a nuca de Afonso até ao fundo das suas costas e espalhando-se depois pelo resto do corpo, fazendo com que a sua cabeça embatesse instintivamente no tronco onde se encostava.

    “Cala-te e põe-te de pé que eu não sou assim tão fácil todos os dias.”

    E por muito reticente que ele estivesse em relação a deixar que o primo lhe tocasse depois de tanto tempo e dos problemas que a última vez lhe tinha dado, aquela voz de comando não lhe deixava outra escolha. Era tão injusto que tal coisa lhe arrepiasse o corpo todo e que o seu próprio primo o deixasse mais excitado que qualquer outra pessoa, mas a verdade é que momentos depois lá estava ele, de pé, encostado à grande árvore, de calças puxadas para baixo e a controlar-se para não começar a gemer mesmo antes de ser tocado.

    A rapidez e a diligência com que o outro rapaz o agarrou pelas nádegas e o puxou para si foi no mínimo surpreendente. E Afonso teve apenas uns míseros segundos para pensar que Martinho tinha de estar muito bêbado para fazer aquilo, antes de se perder completamente naquela sensação tão nova que era sentir pela primeira vez uma boca húmida e irrequieta a engolir-lo practicamente por completo. E onde raios é que ele tinha aprendido a fazer aquilo? Ele nem tinha a coragem de olhar para baixo, de ver aqueles lábios carnudos que tanto o assombraram nos últimos anos a circundá-lo, aquela língua normalmente tão aguçada, mas que naquele momento só lhe estava dar vontade de a tocar de alguma forma porque aqueles movimentos eram surreais. Merda, comparado com aquilo ele devia ter sido pior que um adolescente virgem – coisa que ele era naquela altura e ainda continuava a ser, pensando bem.

    Mas um pequeno momento de distracção – ou curiosidade, venha o diabo e escolha – fê-lo olhar para baixo e, em segundos, Afonso estava preso.

    Preso não só ao acto em si como aos olhos azuis que o observavam, fixados nos seus sem qualquer pudor, como um convite. E ele devia mesmo ter dado ouvidos aos seus instintos, mas naquele momento já não havia volta a dar, ele tinha de parar aquilo de alguma forma ou iria tudo acabar cedo demais, ele tinha de puxar o primo contra si e de sentir o calor do peito dele contra o seu, ele tinha de o beijar—e foi o que fez.

    Nos primeiros segundos Martinho pareceu ter ficado paralisado. Aconteceu tudo muito rápido, Afonso puxou-o pelos ombros com um quase inaudível ‘Pára, pára...’, agarrou-lhe no rosto e quando ele deu por si já os seus lábios estavam a tocar noutra parte do corpo do primo, parte essa com muito mais vida, com uma língua que se intrometeu na sua boca sem autorização e o deixou um pouco surpreso. Mas quem ficou ainda mais surpreendido foi Afonso quando Martinho o beijou de volta, com tanto entusiasmo como ele e o agarrou pelos braços, puxando-o ainda mais para si.

    Ouviu-se o som de um cinto a ser desapertado e de roupas a serem descartadas à pressa. Martinho só parou de o beijar alguns segundos depois, quando levou a mão à frente da boca e cuspiu para a palma, levando-a então rapidamente ao nível das duas erecções que se tocavam ao de leve e apertando-as em conjunto. Afonso não conseguia parar de olhá-lo nos olhos, era-lhe impossível, e Martinho também parecia tão envolvido quanto ele, ambos respirando freaticamente de lábios tortuosamente próximos, apenas com um pequeno espaço que fechavam sem qualquer coordenação, em beijos que trocavam inconscientemente de cada vez que o prazer se tornava quase impossível de suportar. E entre gemidos abafados e movimentos dessincronizados, os dois rapazes voltaram a encontrar a única sensação que os fazia sentir vivos. Porque por muito ridículo que isso soasse, Afonso tinha a ligeira sensação de que nunca ninguém o deixava tão depravado, tão corrompido e ao mesmo tempo tão livre. Tudo isso era assustadoramente viciante.

    Enquanto tentavam abrandar as respirações e reaver a compostura, Afonso apoiado no tronco da árvore e Martinho apoiado nele, beijos eram trocados impulsivamente, como se fosse impossível para ambos parar tudo aquilo completamente, como se estivessem à espera que alguma coisa acontecesse para lhes acalmar o desejo. Mas essa coisa não veio e nem um nem outro se moveu, apenas continuaram ali naquela posição extremamente comprometedora por largos momentos, de bocas coladas e sorrisos estampados na cara. Afonso, quando sentiu o sorriso do primo contra o seu, agarrou-lhe o rosto com ainda mais força e tentou em vão fazer-se desaparecer dentro do outro rapaz, com beijos profundos que com alguma sorte lhe iriam matar aquela vontade de desatar a rir como uma menina. Sim, porque por muito estático que ele estivesse, ainda havia uma certa dignidade a manter – ou o máximo de dignidade que uma pessoa consegue reunir quando está encostado a uma árvore de calças para baixo com uma outra pessoa a apalpar-lhe o rabo entusiasticamente durante uma batalha de línguas.

    Mais tarde acabaram por voltar para o mundo real, nenhum dos dois com muita certeza de como ou porque pararam, mas com um par de sorrisos comprometedores demais para serem mostrados em conjunto. Foi decidido que Afonso era, dos dois, quem precisava mais de ir à casa-de-banho – e, claro, que era imprudente irem os dois ao mesmo tempo, não fosse o diabo tecê-las.


    .


    Afonso estava a entrar na casa-de-banho dos homens quando Telma saiu pela porta ao lado, já sem chapéu e com um ar pouco sóbrio. Como é que ela era capaz de se manter em pé em cima daqueles sapatos era um mistério, mistério esse que não fazia parte das prioridades dele naquele momento, por isso apenas se limitou a acenar-lhe antes de lhe virar costas. É claro que ele já devia ter adivinhado que o estado dele não iria passar despercebido, por muito bêbada que a Miss Fashionista estivesse.

    “Tu e o Martinho estão a ficar cada vez menos discretos, baby.”

    Essa simples frase fez com que Afonso ficasse especado à porta da casa-de-banho, como uma estátua de olhos arregalados. Um suor frio arrepiou-o, um medo indescritível tomou conta de si. Até que ponto é que ela sabia? E será que ia contar a alguém? Não, aquela era a Telma, a pessoa com a mente mais aberta que ele conhecia, ela não ia ter de coragem de—

    “Deixa lá, não precisas de explicar nada, eu já sei.”

    “Já sabes?” ele perguntou a medo, virando-se para a encarar e deparando-se com um sorriso presunçoso estampado na cara dela. Por momentos ficou em dúvida se isso seria bom ou mau sinal.

    “Claro, desde aquela vez em que vocês fizeram uma tenda de almofadas e se enfiaram lá sozinhos. Um bocadinho duvidoso, não?”

    Pois claro, aqueles dias em que ambos pensavam mais com as hormonas que com o cérebro e não tinham mais nada com que se preocupar. Era bom demais que tivessem passado completamente despercebidos, pensando bem. Mas ele não era de se descair assim, precisava de certezas, não fosse a irmã estar a falar de outra coisa e ele ter saltado logo para conclusões precipitadas.

    “O que é que viste hoje?” ele sussurrou, mesmo que o corredor que dava acesso às casas-de-banho estivesse deserto. Telma pareceu notar o seu desconforto porque o puxou para dentro da divisão de onde tinha saído e fechou a porta atrás de si. O facto de que estavam na casa-de-banho das Senhoras foi esquecido a favor de um local vazio onde pudessem falar à-vontade.

    “Nada de especial, mas ouvi. Suponho que pelo estado dessas roupas tenhas sido tu quem estava encostado à árvore.”

    “E o que é que andavas a fazer no jardim?” Afonso atacou, recorrendo ao método mais infantil de sempre, mas não conseguindo evitá-lo. “O vinho e a música estão cá dentro, que eu saiba.”

    “Vim fumar um cigarro com a Filipa.” ela respondeu-lhe simplesmente, voltando-se para o espelho onde olhou o seu reflexo e penteou o cabelo com os dedos.

    “Só fumar um cigarro?”

    “Bom, pode-se dizer que as minhas suspeitas foram confirmadas.” ela continuou, voltando-se para ele com um sorriso maroto e encostando-se ao lavatório atrás de si. “Ou pelo menos se ela não era fufa, a partir de hoje passou a ser. E não te preocupes, ela também não viu nada e não associou os barulhos a nenhum de vocês, graças a mim, claro.”

    Um peso foi-lhe levantado dos ombros e Afonso deu por si a respirar fundo. Com toda a certeza que estavam salvos se Telma era a única que sabia do segredo. Quanto mais não fosse porque ele também acabara de saber um dela, um que a poderia expulsar de todos os próximos eventos familiares, eventos esses que ela adorava, por muito que tentasse negar.

    “Tu...”

    “Eu estou solteira e tenho todo o direito de me divertir. É claro que à custa disso o meu cabelo ficou a parecer um ninho de ratos, mas—”

    “O teu cabelo está igual.” Afonso assegurou-lhe, revirando os olhos à preocupação dela com uma coisa tão ridícula como um cabelo fora do sítio.

    “Tu és completamente cego no que diz respeito a essas coisas.” ela falou num suspiro, lançando-lhe um daqueles olhares cínicos através do reflexo do espelho antes de se voltar para ele outra vez, dando o caso do cabelo despenteado por encerrado. “Só espero que o resto daquela sala também seja. Diga-se de passagem que não é nada fácil tirar restos de batom vermelho dos lábios... ou verdete de uma camisa branca. Eu se fosse a ti não ia para o salão nesse estado. Queres que eu te vá buscar o casaco? E o do Martinho, já agora.”

    Ele aceitou, é claro, e momentos depois Telma estava de volta com dois casacos pendurados no braço.

    “Onde é que o Martinho está?” ela perguntou-lhe enquanto lhe dava os casacos para a mão.

    “No parque infantil, acho eu.”

    “Vai lá ter com ele então. E tratem de lavar a cara, nota-se perfeitamente que andaram aos beijos.”

    Afonso baixou a cabeça, tentando em vão esconder-se do olhar sabedor da irmã e limitou-se a assentir, dirigindo-se até à porta. Quando já estava quase a sair, Telma voltou a falar, dessa vez num tom muito mais sério.

    “Ouve, duas pessoas não se beijam depois de tanto tempo só porque lhes apeteceu. Quando já se conhecem assim tão bem, esse acto torna-se uma coisa muito mais íntima. E ele beijou-te de volta, certo? Se calhar está na hora de te juntares à geração que não se preocupa com o que o mundo pensa. Não achas que é essa a nossa missão neste mundo?”

    Após ouvir as palavras da irmã, um turbilhão de respostas passou-lhe pela cabeça. Apeteceu-lhe negar qualquer sentimento pelo primo, negar a sua vontade de viver como ela, deixar bem claro que apenas ela fazia parte dessa geração, não ele, mas a verdade é que há anos que ele ansiava por mudar alguma coisa na sua vida. Por deixar de ser o menino tímido que nunca sai de casa e cujos únicos amores são a natureza e a mecânica. Deu por si então a assentir com a cabeça uma vez e a não proferir uma palavra até fechar a porta atrás de si, deixando a irmã no silêncio.

    Não eram precisos mais discursos.
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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Qui Fev 05, 2009 12:23 pm



    Quando chegou ao parque infantil que ficava por detrás do salão, Afonso foi encontrar Martinho sentado num baloiço, de camisa ainda por fora das calças e cabelo despenteado. Sorriu para si mesmo, apertando entre os braços o casaco que a irmã lhe tinha dado e que ainda cheirava ao outro rapaz, e por fim foi-se sentar no baloiço ao lado.

    Martinho aceitou o casaco com um sorriso e vestiu-o prontamente. Ambos continuaram a balançar-se ao de leve, em silêncio, Afonso a tentar ganhar coragem para deixar tudo claro entre eles. Por fim acabou por dizer a primeira coisa que lhe ocorreu.

    “A Telma sabe.”

    Martinho parou o baloiço batendo com os pés no chão e virou-se de imediato para o fitar, os seus olhos arregalados e amedrontados. Era óbvio que ele sabia do que estavam a falar naquele momento.

    “O quê? 'Tás a gozar...”

    “Mas não te preocupes, ela também não é nenhuma santa.” Afonso falou, tentando acalmá-lo. Ao ver aquele olhar confuso e preocupado estampado na cara do outro rapaz, continuou com a sua explicação, esperando que a irmã o perdoasse, ou que até nem se importasse. “A Telma gosta de gajas.”

    “Oh, a sério?” Martinho perguntou-lhe com um ar surpreendido e um sorriso a voltar a formar-se nos cantos dos seus lábios.

    “Pensei que fosse um bocadinho óbvio com aquela conversa ao almoço...” Afonso disse num tom sarcástico, revirando os olhos e voltando a balançar-se quando reparou que o clima tinha acalmado um pouco. Mas Martinho apenas continuou a observá-lo, sentado no seu baloiço sem qualquer movimento, de olhos presos no rosto do primo.

    “E tu também... gostas de gajos?”

    O baloiço começou a fazer um barulho irritante, sinal de que Afonso tinha aumentado de velocidade. Passaram largos segundos até que ele finalmente respondesse, sem parar o balanço ou olhar na direcção do outro rapaz. Porque ele ia dizer aquilo, por muito que lhe custasse.

    “Eu gosto de ti, o resto não sei.”

    Depois disso, Afonso esperou de tudo. Esperou choque, rejeição, uma conversa séria ou até, nos seus sonhos mais loucos, uma confissão de amor idêntica à sua. Mas o que ouviu foi apenas o barulho do outro baloiço a acompanhar a velocidade do seu. Quando olhou para o lado Martinho tinha um sorriso genuíno na cara e isso foi o suficiente para o deixar quase a explodir por dentro.

    “Alguma vez pensaste em viajar?” ele perguntou minutos depois, quando o silêncio já lhe começava a incomodar e uma ideia mirabolante lhe ocorreu.

    “Viajar? Ás vezes.”

    “É que a Telma tem-me andado a tentar convencer a ir com ela num Inter Rail, visitar umas quantas cidades europeias de comboio e assim, mas eu não fiquei muito convencido.” Afonso continuou, abrandando um bocadinho a velocidade do baloiço, cada vez menos, quase até parar. Quando se voltou para o primo, este olhava-o com interesse, esperando que ele continuasse o que estava a dizer. “Tipo, ir sozinho, com ela e mais umas quantas pessoas que não conheço...”

    “E depois? É uma viagem, pá! Se os meus pais me deixassem eu não pensava duas vezes.” Martinho confessou-lhe com um pequeno sorriso na cara, também parado e a observá-lo de cabeça apoiada na corrente que prendia o baloiço à estrutura de metal que o suportava. Afonso não resistiu, teve que se aproximar um pouco dele e falar num sussurro tímido, quase inaudível.

    “Se quiseres podes vir connosco...”

    E para sua surpresa Martinho aproximou-se também e deu-lhe um pequeno beijo nos lábios, casto, mas ainda assim que o arrepiou desde a raiz dos cabelos até à ponta dos pés.

    “Vou pensar nisso.” ele respondeu, começando logo de seguida a balançar-se de novo, cada vez mais rápido. Afonso fez uma nota mental para não se esquecer de obrigar o primo a pensar seriamente no caso.

    “Hey, aposto que não consegues balançar isto tão alto como eu.”

    Afonso sorriu para si mesmo e aceitou o desafio, dando mais lanço ao seu baloiço e agarrando as correntes com força enquanto sentia o vento fresco da noite a acariciar-lhe o rosto.

    Aposto que juntos conseguimos chegar mais alto que isto.


    THE END

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Maggie Black
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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Qui Fev 05, 2009 1:07 pm

clap

Primeiro .... Ahah! Eu sabia que ela sabia xD! Sim, era tudo demasiado obvio para pelo menos a Telma não perceber! xD

Segundo... Esta foi de longe e sem qualquer duvida a melhor one-shot deste genero que eu alguma vez li.
wow!
Acho e tenho a certeza que não sou a unica que o pensa, escreves de um forma totalmente perfeita.

Terceiro... Adorei esta ultima parte, porque (apesar de ser muito obvio nao tinhamos a confirmação) percebemos que o Afonso não era o unico a sentir-se daquela forma. Adorei mesmo a parte final, quando estão ambos no baloiço e apesar das poucas palavras conseguem transmitir tudo o que sentem de forma invejavel. Adorei aquela confissão timida do Martinho fangirl2 , é completamente inesperada e adorei a forma como pela primeira vez ele ficou intimidado por toda aquela situação.

Quarto... quanto aquela sequela que eventualmente poderia aparecer por aqui... Esperemos que apareça o mais rapído possivel biggrin , porque fiquei verdadeiramente viciada nestas duas personagens fangirl2

Beijos Maggie w00t
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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Qui Fev 05, 2009 3:24 pm

Best One Shot slash EVER!
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História perfeita
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Mereces os creditos! aww
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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Qua Fev 11, 2009 1:03 pm

Hello.


Muito bem, eu já nem sei o que dizer sobre as tuas histórias eager estou sem argumentos, tipo, lol ,__,
so, isto é indescritivel e tu, para além de seres super criativa, consegues transmitir imensas coisinhas através das palavras que usas *o* parece que estamos a viver tudo, também :33 falo por mim, course.
Quanto à história, acho que está muito original&bonita. Gostei imenso de a ler e quero mais excited
Por isso, Rita, é bom que escrevas algo mais depressa porque eu já não vivo sem ler coisinhas tuas fangirl1
btw; twincest, sim? heart
Beijinho hug
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MensagemAssunto: Re: Growing Upside Down (slash)   Qui Mar 12, 2009 4:46 pm

wooh wooh wooh


Omg wtf speechleeeeeess!!!
A sério, nunca pensei vir a amar tanto uma história com personagens originais, visto q sou toda coisa de ler fanfics dos Tokio Hotel e uma vez por outra Harry/Ron ou Harry/Draco, - mas OMG, isto está fantástico!
E isto parece que veio mesmo a calhar, porque eu andava sempre a chatear uma amiga porque achava que o primo super hot & labrego gostava dela e ela gostava dele e ela toda coisa "ah, mas é primo e a minha família ia achar horrível" etc etc. I'm SO gonna recommend this to her.

Anyways, amei cada pedacinho de descrição, cada pedacinho de nervosismo do Afonso, cada pedacinho de atrevimento do Martinho, cada pedacinho de lesboness (isto existe?!) da Telma, etc. Excelente escolha de personagens, adoro sempre os modelos que vais buscar.
E, como já disseram aqui, esta foi mesmo, de longe, a melhor one-shot que já li. Pelo menos em português, vá, porque há sempre um espacinho no meu coração reservado a shameless twin porn.

Quero mesmo ler mais destas e, obviously, uma SEQUELA!!
Amei mesmo! dance
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